domingo, 7 de novembro de 2010

Here we go again


Há exatamente um ano, escrevi o primeiro texto desse blog, que abrigou histórias bizarras e foi motivo de muitas risadas, mas acabou sendo meio que abandonado por motivos de força maior. Era tanta coisa interessante pra ser escrita que eu preferi viver essas coisas a contá-las no blog. Faz sentido, vai....

Enfim, não é que as coisas interessantes tenham parado de acontecer, mas é que a vida mudou, e nada melhor do que começar a escrever sobre uma nova fase da vida, né? Era só o tempo de me organizar um pouquinho... afinal, todo começo é meio tumultuado, mas cá estou de volta.

Agora, uma coisa, o nome do blog ficou meio desatualizado. O balcón de Barcelona virou uma janela, charmosinha até, na Vila Mariana, em São Paulo, meu bairro do coração nessa cidade, que não tem o charme de Barça, mas tem um algo especial que me faz sentir em casa, mesmo não sendo minha terra natal.

Em dois meses de Sampa, voltei a trabalhar no meu antigo emprego, reencontrei quase todos os meus melhores amigos, dei muita, muita risada e vi e ouvi muita coisa boa: de Saramago by Chico Buarque a Black Eyed Peas, passando por Kings of Leon, Bajofondo e Jamiroquai (again), além do absurdo Tropa de Elite. Votei para presidente, fiz check-up médico, fui pra Borborema fazer nada, mostrei meus dotes de artesã ao lado da minha mãe e voltei para uma voltinha por Londres, a trabalho. Curti minha casinha, meus housemates, descobri que o supermercado aqui é mais caro do que lá, paguei três meses de academia antecipados - pra não correr o risco de desistir - e dormi na metade das aulas de ioga a que compareci.



Comi a coxinha do Veloso, passei o sábado na Benedito Calixto e a noite na Augusta, tomei chuva e levei olé do busão. Afinal, assim é São Paulo, né...com todas as suas crueldades e não-belezas, é a cidade que aprendi a apreciar e adorar e é onde eu vivo, pelo menos por enquanto, meus sonhos e meus momentos.

O nome do blog não vai mudar, afinal de contas o balcón en Barcelona só foi possível graças a São Paulo e vai ficar como uma homenagem a mais um sonho conquistado nessa cidade, de oportunidades e experiências inigualáveis, para mim e muito mais gente. Só quem vive, sabe como é.

Deu Barcelona
Olá São Paulo
É muito bom estar aqui novamente, mi balcón!



segunda-feira, 7 de junho de 2010

Contagem regressiva







OK, eu sou ansiosa mega. Ainda falta mais de um mês pra eu ir embora de Barcelona, mas o sentimento de despedida já começa a me rondar. Talvez dois motivos colaborem ainda mais pra isso: o de indefinição, já que ainda não sei quando vou embora porque tenho pendências burocráticas pra resolver - e isso me deixa ainda mais louca ansiosa - e o de apego. Acabo de ler um livro que me deixou ainda mais envolvida com essa cidade. Melhor dizendo, enfeitiçada.

Todo mundo que me conhece um pouquinho sabe da minha paixão por coisas esquisitas - prédio antigos, casas abandonadas, histórias e pessoas raras. O livro - La Sombra del Viento - conta uma história de mistério em Barcelona. Pra quê? Tive que ler o "tocho" de quase 600 páginas em duas semanas, em meio a trabalhos e mais trabalhos. Fins de semana na praia ajudaram vai. Fiquei autista por muitos instantes.

O mais legal é que a história se passa numa Barcelona que não é a de hoje, mas é a mesma em que eu vivo. Porque essa cidade tem isso de encantador. Eu "viajo" ao andar em certas ruas e imaginar que havia gente morando ali 2000 anos atrás. E de imaginar quem já viveu e morreu naqueles casarões antigos, hoje compartidos por dezenas de pessoas e antes por famílias endinheiradas. Me encanta saber que a parte "decadente" da cidade é onde antigamente dominava a sociedade. E imaginar como seria aquilo tão diferente naquela época. E tão igual.

Chamar o bairro gótico de "decadente"é um crime, por isso as aspas. É o lugar mais sensacional da cidade, que divide o velho e o novo, que respira arte e guarda a energia da cidade. O lugar mais vivo, agitado e até hoje em alta, seja de dia ou à noite. O Gótico vai ser o primeiro tema dos próximos textos, que em clima de retrospectiva vão tratar das belezas dessa cidade linda, onde não poderia deixar de ter estado e vivido.

Continua...






quinta-feira, 27 de maio de 2010

De ter uma alma cubana


Eu não sei de onde veio. Nem como começou, nem porque. Só sei que foi assim. Uma hora me dei conta de que gostava muito de Cuba. Isso já faz tempo. Acho que foi no colegial. Interessava-me pela história, pelas pessoas, pela cultura. Pelo fato de ser uma país entre poucos que viviam em um mundo à parte. Acho que eu tinha uma alma vermelha na época, iludida, sonhadora.

Eu prometi a mim mesma que Cuba seria a primeira viagem que faria quando tivesse meu próprio dinheiro. Uma alma vermelha não iria pra Cuba bancada por alguém. E assim foi.

Em 2007, desembarquei no aeroporto de La Habana, em minha pela primeira vez fora do Brasil, para passar 3 semanas na casa de uma família cubana e poder aproveitar o máximo que pudesse do que o país tivesse para me oferecer.

Melhor impossível.

OK, eu não tinha viajado nada antes, então tudo que viesse seria ótimo. Mas, ainda assim, eu viajei bastante depois disso, e Cuba continua no primeiro lugar do pódio.

É claro que entram aí causas sentimentais. Eu já nutria uma atração pela ilha e isso só aumentou convivendo com seu povo absurdamente simpático e apaixonante. Gente culta, que te surpreende por saber coisas que às vezes nem você sabe direito. Não porque eles não poderiam saber mais que eu sobre o Brasil, o Lula, ou o Roberto Carlos, mas porque eles só têm 4 canais de televisão e todos os jornais são feitos pelo governo. A informação é um tanto quanto limitada, por assim dizer.

Mas Cuba é apaixonante pelo que é e pelo que não é. Pelo sorvete pelo qual todos são fanáticos (morango ou chocolate), pelo cinema a centavos, pelo balé e pelo esporte, pela medicina, pela suposta (bem suposta) igualdade. Pra mim é orgulho porque lutou contra algo que ia contra sua natureza, que fazia mal para sua população. O que veio depois disso, a forma como foi governada, as medidas que foram tomadas, absolutamente questionável.

Na minha aula de espanhol, ouvia arrepiada minha professora contar de como ajudou a acabar com o analfabetismo na época da Revolução, enquanto chamava Fidel de companheiro, com propriedade. Eu me sentia perto de uma heroína, de alguém que tinha lutado por seus sonhos, pelo que considerava justiça.

Senti orgulho de saber que eles não tinham aceitado a invasão norte-americana e suas restrições, e tinham imposto sua personalidade, sua vontade.

Essa noite eu revivi muito disso. Das surpresas de viver, ainda que por pouco tempo, em um lugar tão distinto, das emoções que vivi enquanto estive ali. Da saudade do lugar, das sensações, dos sentimentos, das pessoas. Da vontade de que aquilo tivesse dado certo e fosse um caminho a ser seguido.

Da vontade de poder ver, como ali, todas as crianças de uniforme, indo pra escola, e de encontrar, em cada esquina, alguém que faça música por amor, por paixão, por talento. Em Cuba, eu encontrava um atrás do outro. E o Buena Vista Social Club é um conjunto dos melhores, sem dúvida. E olha que são muitos os bons. Muitos.


Estou de alma lavada. E quero voltar a Cuba.


video

segunda-feira, 24 de maio de 2010

De bicicleta rumo ao paraíso: Formentera






A primeira vez que vi essa ilha nem sabia se existia de verdade. Foi há uns 5 anos, imagino, vendo o filme "Lucia e o Sexo". Por acasos do destino, revi a película este ano em companhia das minhas inseparáveis amigas de Barcelona e então descobrimos que o paraíso que servia de cenário era a ilha de Formentera, localizada a curta distância de Ibiza e, por consequência, de Barcelona.

Com a previsão de calor chegando, marcamos nossa passagem e reservamos hotel com destino ao paraíso. Assim imaginávamos. Mas a palavra "paraíso" pode ser trocada por "absurdo", porque na verdade a beleza de Formentera é indescritível.

Uma ilha praticamente selvagem onde só se chega em barco e é proibido acampar, onde se estimula que as pessoas andem em bicicleta e onde as praias são em sua maioria, grandes desertos de areia branca banhada por água azul, transparente, de emocionar ao olhar.

Em suas areias, nos deitamos e ouvimos o silêncio, agradecemos pela vista tão especial e tentamos falar baixo (principalmente eu) para respeitar o momento de cada um à beira do mar. O silêncio é a trilha sonora de Formentera.

Hippies, gente completamente nua, gente desapegada de maiores confortos, gente disposta a curtir a natureza. Foi o que fizemos. Em bibicleta, chegamos a uma ponta da ilha, à outra, chegamos ao agujero. Também cenário do filme, é um buraco no chão de uma parte alta da ilha, de onde se pode chegar a uma pequena caverna e ter uma visão incrível da imensidão do Mediterrâneo circundando a ilha.

Em um momento como esse, nos sentimos pequenas, infinitamente pequenas, diante de tamanha beleza. E constatamos como existem rincões no mundo a serem explorados e desfrutados, se os conservamos. Formentera é bem cuidada. É sem igual. Tem, além de beleza, uma energia especial que te relaxa e te faz sentir realmente em outro planeta. Até ETs acreditamos ter visto, mas isso é tema para outro post...

Hasta luego, Formentera. Vales imensamente la visita!


terça-feira, 18 de maio de 2010

Do repertório e sua repercussão

Começo a escrever mesmo sem saber o que segue. Só deu vontade e me senti em dívida com o pobre blog, aparentemente deixado de lado. São os trabalhos e os trabalhos. E as viagens também, confesso, e as distrações do dia a dia. Não sou de ferro e esse deveria ser meu ano sabático, ok.

Daí vem a reflexão. Do repertório. É mais ou menos sobre como só encontramos graça nas coisas que nos fazem referência em algo. Digo isso porque vivo em mundos muito diferentes. Mas quase sempre foi assim. Desde que morava em Borborema e não me identificava com as "amiguinhas" das festas de trabalho do meu pai. Não queria socializar e ponto.

Quando saí de casa, enfrentei isso de leve. Não tinha com quem fazer brincadeiras com coisas do passado, ninguém entendia. Em São Paulo, ainda mais. Numa época, fazia pesquisas sobre como alguém dizia pano de prato (no interior em geral se diz guardanapo) ou se alguém sabia o que era errorex (o famoso branquinho). Enfim, aos poucos fui formando novas referencias e as piadas começaram a existir, uma vez mais.

Assim também no meu ex-trabalho, onde fazia um monte de brincadeiras que hoje já não fazem quase sentido, mas que eu insisto em continuar fazendo. Agora me deparo com outro desses: trabalho num ambiente absolutamente catalão, o que significa que não entendo muito mais da metade do que eles falam. E não tenho vontade de entender, o que é pior. Enfim, vivo apartada. E o mais raro, não me preocupo.

Em compensação, tenho com minhas amigas de Barcelona piadas que só nós entendemos. E já começo a me preocupar que quando quiser fazê-las ninguém vai entender... Enfim, encontraremos outras.

Afinal, essa minha vida tem sido a arte de intercalar estilos abolutamente nada a ver e conseguir sair-me mais ou menos bem em todos eles. Afinal de contas, um ano de vida na Europa não tem muito a ver com minha vida em Borborema. Nem pegar um busão cheio de baratas pra ir trabalhar na Daslu. Ou comprar uma saia em promoção na C&a pra um evento do cliente chiquetoso no Fasano.

Um sábio amigo já me dizia que o bom de vir de baixo é que é muito mais fácil se adaptar ao mundo de cima. E que o contrário é quase impossível. Acho que concordo.







domingo, 2 de maio de 2010

Como minha Melissa foi parar no trilho do metrô

A vítima

"Mira, mira!"

Marcela Chacur, depois de ver minha sapatilha caída no trilho do metro, dois minutos antes do trem chegar, para um grupo de catalães que ela enxergou como a esperança de resgate.

"O trem tá chegando, o trem tá chegando!"
Eu, desesperada, depois que um dos catalães não pensou duas vezes e pulou na linha do trem para salvar a sapatilha de ser esmagada e de possivelmente causar um problema no metro.

"Como foi que eu não registrei isso? Onde foi parar minha veia jornalística?"
Adriana Moreira, indignada por não ter sacado fotos da sapatilha abandonada justo em cima do trilho do metro, nem de registrar a minha pessoa com cara de choro repetindo: "Vai amassar minha sapatilha, vai amassar minha sapatilha" e nem do semblante de herói do menino catalão depois que seus amigos o puxaram pelos braços de lá de baixo. E a galera aplaudiu.


Tentando o salto


Tudo aconteceu assim. Chegamos à estação. Faltava pouco mais de dois minutos para o trem chegar. As meninas queriam tirar fotos da minha imitação furada do salto do Chaplin. Aquele em que ele paula de ladinho e encosta um pé no outro. É sempre uma atração à parte. Tentei em Portugal, em Milão, na Barceloneta, nas Ramblas, em todo lugar onde haja um mínimo de espaço e platéia. Não consigo. E é ridículo. Consequência: diversão garantida.

A proposta: vamos tirar uma foto do seu pulinho de Charles Chaplin. No metrô. OK. Várias tentativas. Fotos borradas. Última vez. Pego embalo. Me empolgo. Corro. Salto. E vejo a sapatilha efetuar alguns giros no ar antes de cair, placidamente, em cima do trilho do trem. Enconsto na parede, inconformada. Escondo uns furos da minha meia. Nem passa pela minha cabeça saltar nos trilhos. São quase 3h da manhã. Nenhum funcionário do metrô à vista. Chega um grupo de catalães borrachos. Marcela pede ajuda. O menino não titubeia. Pula. E não volta. Celebra lá embaixo. E eu vejo a luz do trem. Desespero. Parece cena de filme. Ele é arrastado para cima por seus amigos. E eu agradeço imensamente.

Obviamente, depois de agradecimentos e risadas, veio a pergunta inevitável: como você fez pra jogar a sapatilha no trilho do trem? E, depois de contar a história, seguimos em grupo para trocar de metrô. Todos tentando conseguir fazer o famoso pulinho. Eu só fiquei olhando. E rindo.



Os heróis. O de jaqueta de couro e olho torto foi o corajoso que pulou.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Numa terra bilingue

Ok, eu já sabia. Quando dizia que vinha pra Barcelona, muita gente me perguntava se não teria problemas com o catalão e me alertava para o fato de a língua ser dominante, em vez do espanhol. Eu dizia que não e tudo bem. E tudo bem mesmo. Na verdade, nunca tive problemas. Até porque todo mundo que fala catalão também fala "castellano". Eles são naturalmente bilingues. O que é animal.

O problema é que eles são muito mais catalães que espanhóis. E aí, na hora do vamos ver, predomina o catalão. Na faculdade, por exemplo, é comum que um professor comece a falar palavras em catalão no meio da aula, ou que algum aluno faça perguntas em catalão. Entre os alunos, na aula, quase sempre rola uma parte da conversa em catalão, até que eles se dão conta e voltam ao castellano comum a todos.

Forte mesmo foi no meu trabalho. A reunião só foi feita em espanhol por minha causa, já que eu era a única que não falava a língua. Me senti um pouco mal, principalmente meu chefe começava a frase em catalão e mudava quando me via. No dia a dia, já me acostumei, entro e digo: "Bon dia", quase como em português, só que o "d" mais na ponta da lingua e saio e falo: "deu". Basicamente. Das conversas, não faço parte, porque tenho preguiça de me esforçar pra conversar. Mas entendo.

Não imagino o que seja nascer praticamente com duas línguas, mas posso ver que não deve ser nada fácil. Todo o tempo ouço perguntas do tipo: como se escreve isso em castellano? Ou constatações, quando pergunto o que significa tal palavra, "putz, não sei como se diz isso em castellano". Bizarro.

É uma língua diferente, uma cultura diferente, uma forma de falar diferente. Eles engrossam a voz quando querem ficar putos, gritam bastante e falam palavrão pra "carai". Imitações péssimas à parte, adoro os famosos "hóstia, tio", "ostras", "jolines", "me importa un pepino", fora os mais conhecidos: "cabrón", "joder, macho". Essa semana ensinei a uma espanhol do meu grupo de trabalho do Master a falar um palavrão muito particular meu. Agora ela só fala isso quando está puta. Viva o intercâmbio linguistico!